
Por Isabella Barbalho, gerente de Relações Governamentais da Start by Alura
Quando o Conselho Nacional de Educação (CNE) deu início ao debate sobre a primeira regulamentação oficial do uso de inteligência artificial nas escolas brasileiras, um ponto ficou em segundo plano na cobertura. A tecnologia não entra na sala de aula sozinha; ela entra com o professor. E é aí que mora o verdadeiro desafio.
Dados do OECD Digital Education Outlook 2026 mostram que o uso da IA como tutora pode elevar a performance dos estudantes em até 127%. O número impressiona. Mas o mesmo levantamento revela que, quando a ferramenta é retirada, esses mesmos alunos apresentam quedas relevantes de desempenho. O que o dado deixa claro é que tecnologia, por si só, não ensina. Quem ensina é o professor, e ele precisa estar preparado para isso.
Mediador, não operador
Por muito tempo, o debate sobre tecnologia na educação girou em torno de acesso: quantos alunos têm computador e quantas escolas têm internet. Com 90% da população acima de 10 anos online (PNAD 2024), esse capítulo está, em grande medida, superado. O próximo é mais complexo: desenvolver o uso qualificado.
Nesse cenário, o papel do professor muda de forma significativa. Ele deixa de ser transmissor de conteúdo para assumir uma posição mais estratégica, como um mediador cognitivo. Apoiar os alunos na estruturação de contextos em que a tecnologia estimule reflexão é uma diferença sutil para quem apenas executa, mas é aí que a evolução acontece.
A BNCC da Computação já sinaliza esse caminho ao estabelecer o Pensamento Computacional, o Mundo Digital e a Cultura Digital como eixos centrais da educação básica. Mas a competência que emerge na prática vai além do que o currículo ancora: é a capacidade de pensar em colaboração com sistemas inteligentes sem perder autonomia intelectual e, com isso, ensinar os alunos a fazerem o mesmo.
Trazer a tecnologia para a sala de aula sem o estímulo do pensamento crítico não é neutro. O CIEB, no relatório do ECA Digital 2026, descreve o chamado "efeito muleta": a IA pode elevar a qualidade imediata das entregas, mas nem sempre contribui para a consolidação de habilidades cognitivas. O aluno acerta mais, mas não necessariamente entende mais.
O dado mais revelador vem da pesquisa TIC Educação 2024, do CETIC.br: apenas 19% dos estudantes afirmam ter recebido orientação de professores sobre como aplicar a tecnologia nas atividades escolares. Sete em cada dez alunos do Ensino Médio já usam IA generativa para pesquisas, mas a mediação pedagógica ainda não acompanha esse ritmo. Sem ela, o risco é transformar uma ferramenta de aprendizagem em um atalho, e perder exatamente o que a tecnologia bem usada poderia oferecer: mais criticidade, mais autonomia, mais criatividade.
Para evitar esse caminho, o professor precisa entender como esses modelos funcionam, quais são seus limites, onde podem falhar e de que forma podem amplificar vieses. Sem esse repertório, incorporar a tecnologia de forma acrítica pode reforçar desigualdades em vez de reduzi-las.
Preparar quem ensina é tão urgente quanto preparar quem aprende
A transformação digital na educação só será sustentável se acontecer pelas mãos de professores que se sentem seguros para conduzir esse processo. E a segurança vem muito mais da formação do que do acesso às ferramentas.
O problema é que, hoje, grande parte dos educadores ainda não foi preparada para isso. A mesma TIC Educação 2024 revela que apenas 54% dos professores participaram de alguma atividade de formação continuada voltada ao uso de tecnologias no ensino nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre os docentes da rede municipal, esse índice caiu de 62% em 2021 para 43% em 2024. E apenas 59% dos que fizeram alguma formação incluíram conteúdo sobre o uso de IA em atividades educacionais — o tema mais urgente, tratado por menos da metade dos professores em formação. Além disso, 30% relatam ter dúvidas sobre como aplicar recursos digitais de forma pedagógica, e 36% dizem que o planejamento do uso de tecnologias demanda tempo excessivo (CETIC.br, 2024).
O debate sobre IA na educação costuma orbitar em torno da tecnologia: quais ferramentas usar, quais plataformas adotar, quais dados monitorar. São perguntas legítimas, mas secundárias se não forem precedidas de outra: que professor queremos e precisamos formar para conduzir essa transição?
A resposta a essa pergunta não está nos algoritmos. Está nas políticas de formação, na valorização do educador e no entendimento de que, sem professor preparado, nenhuma tecnologia transforma a educação. A escola que consegue fazer isso forma alunos com maior capacidade de abstração, autonomia e pensamento crítico.
Isabella Barbalho é gerente de relações governamentais na Start by Alura. Acredita que a educação é a principal alavanca para a transformação social e atua conectando visão sistêmica à execução para implementar soluções educacionais com impacto no setor público.
